O nascimento da capoeira em Brasília
Tabosa explica que a continuidade da capoeira na capital poderia não ter acontecido após o retorno de Mestre Arraia para Salvador durante o período da ditadura militar. Segundo ele, três jovens assumiram a responsabilidade de manter viva a modalidade em Brasília: o próprio Tabosa, Cláudio Danadinho e Fritz. “A capoeira poderia ter acabado aqui. Nós três demos continuidade ao trabalho iniciado pelo Mestre Arraia”, afirma.
Poucos anos depois, em 1968, Tabosa foi convidado para ministrar aulas na Universidade de Brasília (UnB), tornando-se um dos primeiros professores da modalidade em uma instituição de ensino superior do país. O projeto fazia parte das atividades de educação física da universidade e acabou atraindo centenas de estudantes. “Cheguei a dar aulas para mais de cem alunos ao mesmo tempo. Foi ali que precisei desenvolver uma metodologia de ensino que depois seria adotada por muitos professores de capoeira”, relembra.
A primeira academia de capoeira do Distrito Federal
Em 1974, Mestre Tabosa fundou a primeira academia formal de capoeira de Brasília. Na época, segundo ele, praticamente não existiam referências sobre como organizar uma escola dedicada exclusivamente à modalidade.
Inspirado na disciplina do judô, criou uma metodologia própria, estabelecendo sequências de movimentos, organização das aulas, normas de convivência e um ambiente que valorizava higiene, disciplina e respeito. “Eu queria mostrar que a capoeira também era organização, educação e formação de pessoas”, explica. Foi nesse período que estruturou um dos primeiros sistemas de graduação da capoeira brasiliense.
Diferentemente de outros grupos, Tabosa buscou inspiração nas cores atribuídas aos orixás das religiões de matriz africana, criando um modelo que posteriormente influenciaria diversas escolas no Distrito Federal.
Berimbau de Ouro mudou a história da capoeira
Outro momento decisivo da carreira ocorreu entre 1967 e 1969, quando participou do tradicional festival Berimbau de Ouro, realizado no Rio de Janeiro. Ao lado de integrantes do Grupo Senzala, Tabosa conquistou o prêmio durante três edições consecutivas. Segundo ele, o evento representou um divisor de águas para a capoeira brasileira.
As apresentações inovaram ao combinar técnica, preparo físico, coreografias e uma estética diferente da praticada até então. “Nós quebramos paradigmas. A forma como nos apresentávamos mudou a maneira como a capoeira passou a ser vista no Brasil”, afirma.
Reconhecimento nacional e internacional
Ao longo da carreira, Mestre Tabosa participou de apresentações em diversos estados brasileiros e também em eventos internacionais. Na entrevista, relembrou encontros históricos com grandes nomes da capoeira brasileira, entre eles Mestre João Pequeno, Valdemar da Liberdade, Paulo dos Anjos, Itapuã, Leopoldina e diversos representantes do Grupo Senzala.
Também destacou sua participação na histórica Jornada Brasileira de Capoeira, em Ouro Preto (MG), considerada por ele um dos momentos mais importantes da integração nacional entre mestres. “Ouro Preto reuniu praticamente todos os grandes nomes da capoeira brasileira. Foi um encontro histórico”, recorda.
Formação de gerações
Durante mais de quatro décadas ministrando aulas, Tabosa formou centenas de praticantes e diversos mestres que hoje mantêm academias e projetos sociais no Distrito Federal e em outros estados. Entre os nomes lembrados por ele estão Mestre Ralil, Fred Guaraná, Monera, Gil, Agnaldo Camoto e outros alunos que deram continuidade ao seu legado. Segundo o pioneiro, a maior conquista não foi formar atletas, mas cidadãos. “A capoeira é uma escola de vida. Ela ensina disciplina, respeito, responsabilidade e convivência”, afirma.
O livro “Filho de Xangô”
Ao longo da entrevista, Mestre Tabosa apresentou também seu livro “Filho de Xangô”, obra autobiográfica na qual registra parte da história da capoeira em Brasília. O livro nasceu de um incentivo do saudoso Mestre Pombo de Ouro. “Ele dizia que eu precisava registrar essa história porque muita coisa aconteceu e não podia ficar apenas na memória”, contou.
Paz como legado
Ao final da conversa, o mestre fez uma reflexão sobre as décadas de conflitos entre grupos de capoeira, especialmente durante os anos 1980 e 1990. Segundo ele, aquele período quase comprometeu o desenvolvimento da modalidade. Hoje, porém, acredita que Brasília vive um momento de maturidade.
Para Tabosa, a união construída entre mestres de diferentes regiões demonstra que a capoeira evoluiu. Ele cita como exemplo a tradicional Roda da Torre, conduzida por Mestre Kall, destacando o papel conciliador exercido pelo colega ao longo de quase três décadas. “A paz precisa vencer. Não podemos permitir que a capoeira volte a viver aquele período de violência. Hoje somos muito mais fortes quando caminhamos juntos”, afirmou.
Um patrimônio da cultura brasileira
Reconhecido como um dos principais responsáveis pela consolidação da capoeira no Distrito Federal, Mestre Tabosa representa uma geração que ajudou a transformar uma manifestação antes marginalizada em patrimônio cultural reconhecido internacionalmente.
Sua trajetória acompanha a própria evolução da capoeira brasileira: da resistência nas rodas improvisadas às universidades, academias, projetos sociais e eventos internacionais.
Ao encerrar a entrevista, deixou uma mensagem às novas gerações. “Vivemos momentos difíceis, superamos divisões e mostramos a força da capoeira. Agora cabe às novas gerações preservar essa história, respeitar os mestres e manter viva essa tradição construída com muito trabalho e dedicação.”
Confira a íntegra do Papoeirando com o Mestre Tabosa no Youtube da TV Comunitária de Brasília: